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apresentação

Este site é o registro do trabalho de arte relacional desenvolvido na “Disciplina de Projetos Avançados Espaço, Tempo e Forma”, oferecida na Universidade Federal do Paraná pela Professora Doutora Tânia Bloomfield, e a ação urbana realizada se relaciona com o meu Trabalho de Conclusão de Curso de Licenciatura em Artes Visuais[1] na UFPR.

 

O referencial teórico utilizado na construção deste trabalho foi fruto das longas discussões em sala[2] sobre o espaço urbano e noções de como o Humanismo  –  termo que recebe as vestimentas características de cada tempo e espaço em que é evocado  –  opera nos campos estéticos, conceituais e poéticos. O livro “Carne e Pedra: O Corpo e a Cidade na Civilização Ocidental” (2003), de Richard Sennett, oferece uma forma de olhar para a Antiguidade Tardia e, especificamente para a Idade Média do Ocidente Latino (espaço sociocultural e temporal ao qual dedico meus estudos), da perspectiva das mudanças que fundamentam a civilização ocidental, nas intercorrências e nos ciclos de influência em que o corpo da cidade e o corpo do indivíduo exercem um sobre o outro.

 

Em seu texto, Sennett (Op. cit.) relaciona o desenvolvimento das cidades do século XII em diante, com eventos e agentes específicos, que dialogam com a construção da defesa teórica do trabalho de arte relacional desenvolvido. A igreja cristã orienta os espaços das cidades - e também fora delas. A sociedade tripartida entre oratores (aqueles que oravam), bellatores (aqueles que lutavam e forneciam segurança) e laboratores (aqueles que trabalhavam) apresentava uma hierarquia social quase estanque, em que a valorização do trabalho pela igreja era ambígua, atuando também como ferramenta de domesticação da massa de camponeses que trabalhava para manter a ordem social. Gradativamente, sobretudo a partir do século XII, Le Goff (1993) observa que o tempo da igreja, regido pelo livro das horas, vai se alterando, e acaba por dar espaço ao tempo do mercador. O comércio volta a crescer na Europa medieval, fazendo das cidades portuárias italianas, pontos de distribuição de mercadorias. Floresce o espaço econômico.

 

Estabeleci um diálogo com Marie-José Mondzain, que em seu livro “Imagem, Ícone, Economia: As Fontes Bizantinas do Imaginário Contemporâneo” (2013), atribuiu ao termo economia significados sinônimos em contextos distintos: “pois é esta ambivalência da questão levantada pelos termos êikon[3] e oikonomia[4]: uma questão da imagem natural e do destino da imagem artificial” (MONDZAIN, 2013, p.17). Economia passa a significar tanto a administração de bens e serviços quanto, para os cristãos, a administração da natureza, do universo, e em última instância, da salvação da alma. A economia da imagem é a ferramenta que será utilizada uma e outra vez nos discursos de poder e no caráter didático da imagética medieval. A “imitação do corpo de Cristo” (SENNETT, 2003, p.141) é a raiz dos movimentos monásticos que, culminarão na fundação das ordens mendicantes, no século XIII. Os franciscanos, à imagem de Francisco de Assis, abrem mão das posses terrenas e assumem um estilo de vida em que a mendicância somente poderia existir no contexto de crescimento das cidades.

 

A feira é a encarnação do comércio. As conexões nas sociedades medievais se desenvolvem em um estreitamento de influências entre Oriente e Ocidente. Com um pouco mais de atenção, percebemos que a teia comercial desenvolvida no medievo está longe de fazer com que a Europa seja um destino de mercadorias, uma vez que o centros culturais do mundo estavam na Ásia Central.

 

Para a ação urbana, resultado final da disciplina Projetos Avançados Espaço, Tempo e Forma, organizei todas essas informações na criação de uma narrativa que olha para o espaço urbano de uma cidade do sul global, localizada no Brasil, país de colonização portuguesa e que carrega em si permanências de costumes que constituíram a cultura da Península Ibérica durante o medievo. “Ensaio sobre a permanência ou o que são as laranjas?” constitui-se como a fundamentação teórica que se relaciona com o TCC Licenciatura em Artes Visuais recém-defendido na UFPR e embasa a ação de arte relacional realizada no centro de Curitiba, no dia 12 de fevereiro de 2023.

 

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[1] Trago aqui o resumo do meu TCC, que tem como título: CORES NOBRES, CORES DIVINAS – AZUL E DOURADO NO CONTEXTO SOCIOCULTURAL E POLÍTICO DA ARTE CRISTÃ E MUÇULMANA DA IDADE MÉDIA. A construção sociocultural das cores azul e dourado passa pelo crivo da religião cristã, e reconfigura o entendimento simbólico da imagem como agente discursivo, social e econômico. A economia da imagem proposta por Marie-José Mondzain dialoga com os estudos históricos sobre a valorização da cor azul pelas sociedades medievais, apresentados por Michel Pastoureau. Este trabalho analisa o cenário sociocultural e político no Ocidente Latino entre os séculos XII e XIII, quando a cor azul começa a ganhar notoriedade na sociedade ocidental europeia, por meio de dois agentes principais – a Igreja Cristã e a Monarquia. Neste cenário de efervescência cultural, a cor se torna uma questão teológica; à imagem e ao ícone são instituídos atributos morais com base em tratados cromáticos da Antiguidade Clássica, adequados à realidade medieval e aos interesses dominantes. No cenário específico da Península Ibérica, o florescer de Al-Andalus cria um caso único na Europa, onde a convivência entre cristãos e muçulmanos se desenvolve de acordo com o jogo político nos processos de disputas territoriais e trocas comerciais. A arte produzida pelas duas sociedades neste período é fonte historiográfica, capaz de oferecer informações sobre a presença ou ausência da cor azul, suas diversas matérias-primas e sua relação com a cor dourada na construção da imagética medieval. 

[2] Sala virtual: O espaço pós-pandêmico foi reconfigurado em relação à disponibilidade de tempo, muito mais do que ao espaço físico tradicional e limitado da sala de aula. Nas aula on-line, o alcance é maior, os espaços se sobrepõem, cada pessoa conectada está em dois lugares ao mesmo tempo.

[3] Imagem, em grego. Dela deriva o termo ícone, que foi utilizado – no contexto bizantino – para definir um tipo de pintura realizada sobre painel de madeira, de gênero sacro, pintada seguindo os cânones da tradição oriental.

[4] Economia.

trajetória da feira do largo da ordem, curitiba, pr

A ação de arte relacional abriu espaço para o entendimento do processo conforme as coisas foram acontecendo, em que a característica do inusitado apareceu uma e outra vez. O planejamento foi realizado prevendo como o locus da ação urbana outro ponto da cidade de Curitiba para a sua realização, mas a Feira do Largo da Ordem, posicionada entre a Igreja da Ordem Terceira de São Francisco das Chagas e a Mesquita Imam Ali Ibn Abi Talib, no centro histórico da cidade, criou um microcosmo em que a história medieval é reencenada hoje. A relação simbólica que remete ao tempo do mercado e ao tempo da religião está presente e viva na permanência das práticas comerciais. O comércio criou a geografia das rotas das caravanas, e determinou os espaços dos centros das cidades. O suque árabe designa o mercado tradicional ou a feira periódica, sobre a qual a cidade se desenvolve ao seu redor, e, não por acaso, guarda muitas semelhanças com os mercados que vão gerar as ruas comerciais que constituem o centro da cidade de Curitiba, onde árabes desempenham seus trabalhos nas frutarias e mercados. No levante, partindo da Igreja em direção à Mesquita, posicionei a minha banca de laranjas. (MAPA 1).

Mapa 1  –  Trajeto que vai da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco das Chagas à Mesquita Imam Ali Ibn Abi Talib, no centro histórico de Curitiba, no qual a banca de laranjas foi instalada e a ação urbana desenvolvida.

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Fonte: Google Maps website. 2023.

ensaio sobre a permanência
ou
o que são as laranjas?

Na minha família, o hábito de chupar uma laranja no final das refeições era diário, sempre foi a fruta que mais consumimos. Passei a infância na casa da minha avó, envolvido pelo perfume das flores e arranhado pelos espinhos das laranjeiras, apanhando as frutas no pé, por vezes com as unhas descoladas por tentar descascá-las como mexericas, outras vezes, só cortando em quatro e descolando a casca. Se as laranjas eram azedas, nós colocávamos sal. As laranjas estavam lá. As laranjeiras sempre carregadas.

E o que são as laranjas, para além das frutas que perfumaram a minha infância?

Laranja é uma cor. Tenho feito da cor meu objeto de pesquisa, mas especificamente, a cor azul. Aqui a relação é da ordem goethiana: laranja é a cor complementar do azul. Mas o meu interesse, além de relacionar a fruta à cor, é saber de suas origens. No interior do país, está nas laranjeiras, plantadas nos jardins e pomares; nas capitais, está nas feiras, nos mercados, nas frutarias. A laranja é fruta e também é símbolo de desenvolvimento civilizacional, presente há muito tempo na organização dos espaços urbanos.

 

A laranja é uma fruta proveniente da Ásia, e foi introduzida na Europa, na Idade Média, após a dominação muçulmana da Península Ibérica, que ocorreu de 711 a 1492. A laranja azeda (Citrus aurantium) foi levada nas caravanas dos muçulmanos, que já conheciam e cultivavam o fruto no Oriente Médio. Ela se tornou o elemento central na arquitetura andaluza, pois as casas e mesquitas possuíam pátios internos com jardins e pomares, e as laranjeiras perfumavam todo o espaço. O espaço da casa era construído voltado para a fonte central, rodeada por laranjeiras, a idealização do paraíso[5] persa. Com o florescimento de Al-Andalus, floresceu também a agricultura. A laranja que conhecemos hoje é o resultado de vários enxertos e modificações, e faz parte do legado andalusí que constitui nossos costumes.

A beleza da permanência dos costumes muçulmanos na nossa cultura está também nas palavras. Muitas delas, em português e castelhano, derivam do árabe. Laranja, em português, vem de naranja, em castelhano, que, por sua vez vem do árabe naranj (نرنج). Se voltarmos atrás na história, naranj vem do persa nārensh, que possui um radical sânscrito que significa “fragrância”. E a fruta deu nome à cor. No período medieval, a cor laranja não tinha nome ou era relacionada com variações dos tons de vermelho. A laranja nem sempre é de cor laranja, pode ter colorações que vão do verde até o amarelo cítrico, como as laranjas da casa da minha avó. Talvez, por isso, e não muito distante no tempo, minha avó chamava as coisas laranjas de cor de abóbora.

 

A troca é o eixo da pesquisa que motiva este trabalho. O fruto foi trazido pelos muçulmanos, naranj se tornou laranja. Anos após a sua independência, ainda no medievo, Portugal tornou-se um grande exportador de laranjas doces, uma espécie desenvolvida durante o período andalusí, graças à tecnologia agrícola das técnicas de cultivos muçulmanas. Na Itália, a laranja comprada de Portugal passou a se chamar portogallo, que influenciou os países de língua árabe do norte da África e do Oriente próximo, onde naranj é a palavra usada para laranja azeda, mas chamam a laranja doce de “burtuqal”.

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Para além dos estereótipos orientalistas denunciados por Edward Said (1990), os povos árabes formaram a estrutura social europeia. A identificação entre as culturas nômades do Oriente Médio e do Magreb foi responsável pela expansão do Islã, e as trocas comerciais se estendiam de Damasco até Al-Andalus. A história costuma se repetir, em alguns casos, não em forma de expansão, as vezes em fluxos migratórios forçosos, diaspóricos. A guerra da Síria, iniciada em 2011, fez com que muitos árabes sírios viessem se refugiar no Brasil. Na especificidade de Curitiba, encontraram no comércio uma possibilidade de recomeçar. Nas frutarias do centro da cidade, nos reencontramos com a história.

A feira é o lugar tradicional onde as trocas comerciais acontecem, desde os tempos mais remotos. A feira é uma experiência estética, de sabores e fragrâncias, cores e sensações. Na feira nos reencontramos com as práticas mais antigas, e que conectam as pessoas por meio das trocas realizadas. Na feira nos reencontramos com a história.

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[5] A palavra paraíso deriva do termo avéstico (língua iraniana oriental falada na antiga Pérsia) pairi-daeza, e significa jardim cercado por muros. As civilizações localizadas em territórios da Mesopotâmia associavam a ideia de um espaço verde, protegido e com água em abundância com suas narrativas de criação do universo. Na mitologia do Zoroastrismo, Ahura Mazda (deus que encarna o princípio supremo do bem) cria Gayomard, o homem primordial e modelo de perfeição, assim com o primeiro touro. Ambos morrem e emitem sementes. As sementes do touro geraram todas as boas plantas e os bons animais do mundo, e as sementes do homem geraram uma árvore, e de suas folhas cresceram o primeiro casal da terra. Na tapeçaria de tradição persa, as padronagens representadas nos tapetes foram inspiradas pelas planificações de jardins, com canteiros, caminhos e fontes de água.

COMPARECER

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permanência

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arte relacional

Antes de tudo, para pensarmos sobre arte relacional, temos que chamar para essa discussão o curador e crítico de arte Nicolas Bourriaud. Em seu livro "Estética Relacional" (2009), o autor trata de alguns pontos-chave fundamentais para o entendimento da arte relacional. Para além da simples apreciação visual, Bourriaud defende que a arte contemporânea deve ser entendida como um espaço de relações sociais, em que o espectador é participante ativo, que interpreta e cria significados para o trabalho de arte. As relações entre artista, trabalho artístico e os participantes criam a experiência estética, construída por meio do envolvimento intelectual e emocional dos seus agentes (aqui cabe um apontamento da percepção das outras dimensões alcançadas pelas experiências dos participantes que não obrigatoriamente estavam no horizonte do artista no momento de concepção do trabalho). O autor também defende uma postura da arte contemporânea como promotora de crítica social e política, em que o multiculturalismo reflete as tensões da sociedade. 

Olhando para a produção artística brasileira, me inspiro no trabalho da artista Ana Teixeira (2023) em que o diálogo no espaço urbano está no centro da ação de arte relacional. No trabalho "Troco sonhos" (1998 a 2007), a artista propõe a troca dos doces (sonhos recheados) por outros sonhos, descritos no anúncio de sua barraca: “Troco sonhos. Aceito todos os tipos: dourados, esquecidos, abandonados, vivos, mortos, presentes ou enterrados” (TEIXEIRA, 2023). Para a troca ocorrer, os participantes deveriam permitir a gravação de um vídeo, contando um sonho para a artista. O registro do trabalho não é o trabalho, e, nas palavras da artista, “provocar um pequeno curto-circuito no espaço urbano” foi a sua intenção. Montar uma banca, parar para conversar, estar aberto ao inusitado na construção de significado de uma ação que começa no artista, perpassa o trabalho e é ampliada pelos participantes é a minha inspiração na execução da minha proposta de arte relacional. Bourriaud e Ana Teixeira me ajudaram a formatar esta ação, tendo como horizonte a possibilidade de revelar o que está escondido, de entender as outras narrativas que foram suprimidas da grande história e olhar mais detidamente para a pequena história, para as permanências nos espaços urbanos que as pessoas compartilham.

 

Este trabalho de arte relacional foi desenvolvido com base em algumas inquietações. De forma geral, não nos damos conta da influência muçulmana na nossa cultura, e como em um projeto cristão, reforçado pela narrativa imperialista norte-americana, os muçulmanos têm sido, historicamente, associados à heresia, à violência e ao terrorismo. Novamente Edward Said se faz tão importante. Neste contexto discursivo, as permanências árabes e muçulmanas na nossa cultura são invisibilizadas, e este trabalho se propõe a gerar uma reflexão. Ações banais do nosso quotidiano, como tomar um suco de laranja, têm mais camadas do que imaginamos. E quanto às repetições, aos agentes históricos que representam papéis muito semelhantes, cíclicos, de tempos em tempos? E quanto às trocas, ao movimentos circulares que conceitos e palavras assumem no decorrer da história?

O que são as laranjas?

As laranjas são, antes de tudo, naranj (نرنج). São lembranças aromáticas do nosso passado em comum com as pessoas de quem compramos frutas, no centro de Curitiba. As laranjas são a permanência de rastros muçulmanos na nossa cultura. As laranjas são a lembrança do quintal da minha avó, do perfume das flores e dos arranhados dos espinhos das laranjeiras.  

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relato da ação

Curitiba, 12/02/2023.

Domingo pela manhã, organizei uma banca de laranjas e me dirigi até a Feira do Largo da Ordem, na cidade de Curitiba. Esta é a maior e mais tradicional feira da cidade. É um caminho onde as trocas comerciais conectam o espaço urbano desde a Igreja Cristã da Ordem Terceira de São Francisco das Chagas (Igreja da Ordem) até a Mesquita Imam Ali ibn Abi Tálib. A feira é a história sendo (re)apresentada hoje.

Após a montagem, que consistiu em colocar uma mesa em uma via de pedestres movimentada, posicionei um caixote de feira cheio de laranjas de três espécies (laranja-pera, laranja-lima e laranja-da-terra) e uma bandeja com laranjas abertas e outra com fatias caramelizadas, e coloquei sobre o caixote uma placa com a chamada: “O que são as laranjas?”

Sou de uma família de comerciantes, e como dizia o avô da minha mãe, “enfeita que vende”. Montei a minha bancada com a fragrância das laranjas recém-cortadas, e, para cada pessoa que se aproximava, eu repetia a pergunta do cartaz: “o que são as laranjas?”, ao entregar uma fatia de laranja caramelizada e um papel com esta mesma pergunta.

“Laranjas são frutas”, “laranjas são ricas em vitamina C”, “suco de laranja é o meu preferido”, “duas metades da laranja representam o encontro perfeito”. Além das respostas contendo dados técnicos e, eventualmente, simbólicos sobre a laranja, quando eu lhes perguntava de onde achavam que elas provinham, muitas afirmaram que as laranjas eram da própria cidade (ou deste país). Este foi o caminho que eu encontrei para apresentar uma outra forma de pensarmos na pequena história, nos elementos quotidianos que estão assentados na nossa rotina. Rememorei a chegada dos muçulmanos vindos do Magreb até a Península Ibérica, expliquei sobre o cultivo das laranjas e sobre o desenvolvimento da agricultura. Ao entregar um papel que perguntava “o que são as laranjas?”, em seu verso estava escrito “laranjas são naranj نرنج". Laranjas são permanências. 

As conversas com os participantes da ação tiveram como característica o inusitado – quem já teve uma barraca em uma feira sabe do que estou falando –, e as trocas simbólicas entre as respostas das pessoas e a fatia de laranja caramelizada com o papel que provoca a reflexão sobre a indagação inicial, tiveram desdobramentos interessantes. De modo geral, as narrativas históricas cristãs e coloniais que promoveram o apagamento das permanências muçulmanas na cultura Ocidental deram certo. Mas, em alguns casos, os participantes conheciam a história atrás da história. Conversando com um grupo de amigos, enquanto alguns observavam a explicação que eu dava sobre a proposta do trabalho, outros traziam seus conhecimentos sobre a dominação muçulmana e a notoriedade das culturas Orientais no contexto da Europa medieval. 

 

O estranhamento também faz parte da proposta. A feira tem a característica de congregar pessoas de todos os lugares, estrangeiros de todos os tipos, e que carregam consigo suas ideologias, como haveria de ser. No cenário atual, politicamente polarizado, observei em alguns momentos, que, ao mencionar as narrativas de dominação da igreja cristã na construção do discurso da hegemonia europeia  –  e que tiveram profundos desdobramentos na nossa sociedade colonizada  –, alguns senhores simplesmente me devolviam as laranjas e os papeis e se retiravam, sem nem terem ouvido o final da história. Saíam com um certo ar de desagrado, talvez por se darem conta que Curitiba não é a Europa, e que a Europa não é o centro do mundo. Talvez a confusão remonte a "Projeção de Mercator", marco histórico em que se pode ver como a cartografia é um elemento político que determina o que é centro e o que é periferia. Estas ocorrências oferecem mais uma dimensão de reflexão para este trabalho.

Não é estranho não conhecermos a história, não sabermos que durante quase oito séculos, se desenvolveu na Europa Ocidental a experiência muçulmana? No período medieval, a Europa era a periferia do mundo, estava afastada e era de pouco interesse para os grandes centros de cultura e conhecimento, como Pérsia e Bagdá. A conexão direta desses centros com Al-Andalus ocorria através das caravanas de comércio. Mas, como sofremos processos de colonização pelos portugueses, as narrativas históricas imperialistas construíram uma imagem de grandeza da Europa e dos reinos cristãos, que reconquistaram[1] os espaços dominados pelos hereges. Essa é uma história muito mal contada.

E como trato de movimentos circulares, cíclicos e recorrentes, observados neste trabalho, a etimologia oferece elementos para entendermos que a laranja chega pelas vias muçulmanas, a agricultura floresce em Al-Andalus e novas espécies de laranjas são desenvolvidas; Portugal tornou-se um grande produtor e exportador de laranjas, tanto para a Europa como para o norte da África e Oriente próximo, e, em muitos países de língua árabe, o nome da laranja doce é “burtuqal”. É o mesmo ciclo que os turistas percorrem na feirinha do Largo da Ordem, partindo da mesquita até chegar à igreja cristã. É o círculo dentro do círculo, a feira como elemento central das trocas, encenando uma e outra vez a mesma história, em vários tempos.

Participaram desta ação a fotógrafa e artista visual Daniela Reichert, responsável pelos registros, e Rafael Zancan, responsável pelo apoio. Agradeço imensamente aos dois. Este trabalho não seria possível sem a ajuda de ambos.

Todas as pessoas maiores de idade que participaram desta ação aceitaram, verbalmente, serem fotografadas e suas fotos divulgadas neste site. Os rostos das crianças que participaram desta ação foram cobertos.

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[1] O termo Reconquista Cristã compõe um discurso unificador que pretende enaltecer a coroa cristã de Castela. Pensar em uma reconquista territorial pressupõe que o pertencimento de uma região trocou de mãos, mas, ao observarmos a permanência dos muçulmanos (quase oito séculos) e dos cristãos (aproximadamente dois séculos), fica claro que o termo reconquista não é o mais adequado.

 

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referências

BOURRIAUD, Nicolas. Estética Relacional. Tradução de Denise Bottmann. São Paulo, Editora Martins Fontes, 2009.

GOOGLE. Google Maps website. Disponível em https://www.google.com/maps/ Acesso em 12 fev. 2023.

LE GOFF, Jacques. A Idade Média e o dinheiro: Ensaio de uma antropologia histórica. Rio de Janeiro. Editora Civilização Brasileira, 2014.

LE GOFF, Jacques. Mercaderes y banqueiros em la edad media. Buenos Aires. Editora Universitária de Buenos Aires, 1982.

LE GOFF, Jacques. Para um novo conceito de Idade Média: Tempo, trabalho e cultura no Ocidente. Lisboa: Editorial Estampa, 1993.

 

MONDZAIN, Marie-José. Imagem, ícone, economia: as fontes bizantinas do imaginário contemporâneo. Rio de Janeiro: Contraponto, 2013.

SAID, Edward. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. Tradução de Tomás Rosa Bueno. São Paulo. Editora Companhia das Letras, 1990.

 

SANTHIAGO, Ricardo. Quando a escuta acontece: diálogos urbanos na obra de Ana Teixeira. Disponível em: https://www.anateixeira.com/textos/quando-a-escuta-acontece-dialogos-urbanos-na-obra-de-ana-teixeira/ Acesso em: 20 fev. 2023.

SENNET, Richard. Carne e pedra. Tradução de Marcos Aarão Reis. Rio de Janeiro, Editora Record, 2003.

 

TEIXEIRA, Ana. Troco sonhos. Disponível em: https://www.anateixeira.com/trabalhos/troco-sonhos/. Acesso em: 20 fev. 2023.

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rennan negrão

Sou licenciado em Artes Visuais e artista. As duas atividades a que me dedico foram articuladas pelo estudo das cores e refletem uma grande paixão. Desenvolvo a minha pesquisa sobre as cores azul e dourado, no contexto da Idade Média, buscando as permanências, os rastros muçulmanos na nossa cultura, heranças de Al-Andalus. Na pintura, me dedico ao resgate da materialidade da cor por meio da técnica da têmpera a ovo, fatura medieval por excelência, que dá cor às imagens e constroem o nosso imaginário sobre a arte cristã.

 

Os autores que embasam a minha pesquisa no campo da imagem e da cor são Marie-José Mondzain e Michel Pastoureau. Edward Said me ajuda a olhar de forma crítica para as narrativas ocidentais sobre o Oriente. Henri Lefebvre, Jacques Le Goff e Aby Warburg me direcionam para a pequena história, a partir de uma investigação transdisciplinar que busca os rastros do passado que se fazem presentes na nossa cultura.

Rennan Negrão

Curitiba | Paraná | Brasil

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